O exílio esportivo da Rússia após a invasão à Ucrânia
Posted March 8, 2023 5:24 pm.
Last Updated March 8, 2023 6:10 pm.
Um ano depois do começo da invasão na Ucrânia, a reintegração da Rússia ao mundo dos esportes ameaça criar a maior cisão no movimento olímpico desde a Guerra Fria. A Rússia permanece excluída de muitos eventos esportivos internacionais, mas isso pode mudar em breve. Os Jogos Olímpicos de Paris, no ano que vem, estão se aproximando rapidamente, e os eventos de qualificação estão em curso. O Comitê Olímpico Internacional está trabalhando para levar os atletas da Rússia e de sua aliada Belarus de volta à competição, mas nem todos concordam. Caso os atletas russos retornem às competições, o mundo dos esportes precisa solucionar duas questões fundamentais que ficaram claras nos dias após a invasão: como os atletas russos podem retornar sem alienar os ucranianos? E o que pode ser feito em relação aos russos que apoiam a guerra? Com o desenrolar das primeiras batalhas, a equipe ucraniana de esgrima se recusou a competir contra a Rússia em um torneio no Egito, segurando um cartaz com os dizeres: “Parem a Rússia! Parem a guerra! Salvem a Ucrânia! Salvem a Europa!” Um ano depois, um dos maiores obstáculos para o retorno da Rússia aos esportes é a insistência da Ucrânia na possibilidade de boicotar os eventos, em vez de arriscar conceder ao inimigo uma propaganda de sucesso ou traumatizar ainda mais os atletas ucranianos atingidos pela guerra. Outros países europeus também falaram em boicotar as Olimpíadas caso seja permitida a participação dos russos. Os últimos grandes boicotes olímpicos aconteceram quatro décadas atrás, quando os Estados Unidos e mais de 60 aliados deixaram de participar dos Jogos de Moscou de 1980. A União Soviética e seus aliados retaliaram boicotando as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984. Os atos individuais dos atletas são uma questão à parte. O ginasta russo Ivan Kuliak colou um símbolo “Z” no peito, imitando um sinal usado nos veículos militares do país, enquanto ocupava o pódio ao lado do vencedor ucraniano, em um evento realizado no Catar em março do ano passado. Ele foi banido por um ano. O COI atualmente diz que não apoiará o retorno de nenhum atleta russo que tenha “agido contra a missão de paz do COI ao apoiar ativamente a guerra na Ucrânia”, mas não definiu o que isso significa na prática. As organizações esportivas agiram rapidamente no ano passado em resposta à invasão russa. Um dia depois que os tanques invadiram a Ucrânia, a Rússia perdeu o direito de sediar a final da Liga dos Campeões de futebol masculino e o Grande Prêmio da Rússia de Fórmula 1. Após quatro dias, o COI recomendou excluir atletas da Rússia e de Belarus dos eventos “para proteger a integridade das competições esportivas mundiais e pela segurança de todos os participantes”. A seleção russa de futebol masculino estava nas eliminatórias da Copa do Mundo, na esperança de se qualificar para o torneio do ano passado no Catar, mas a Polônia se recusou a jogar contra eles. A Rússia foi então excluída da competição – quatro anos depois de sediar o torneio de 2019 e chegar às quartas de final. À medida que as Olimpíadas de Paris se aproximam, o COI mudou o enfoque para o que considera ser o seu dever de evitar a discriminação contra qualquer pessoa com base na nacionalidade, buscando criar um caminho para que russos e belarussos possam competir como atletas neutros sem símbolos nacionais. As preocupações de segurança podem ser contornadas, segundo o COI, se a Rússia e Belarus competirem em eventos na Ásia, incluindo as eliminatórias olímpicas nos Jogos Asiáticos, na China. O COI aponta como exemplo o tênis, onde os circuitos profissionais masculinos e femininos permitiram que atletas individuais russos e belarussos competissem sem símbolos nacionais. A jogadora belarussa Aryna Sabalenka venceu o Aberto da Austrália no mês passado. Mesmo no tênis, porém, Rússia e Belarus foram excluídas das competições entre seleções nacionais, como a Copa Davis e a Copa Billie Jean King, e também foram impedidas de participar do torneio de Wimbledon do ano passado. A Rússia e seus atletas correm o risco de serem banidos de toda Olimpíada desde os Jogos de Inverno de Sochi em 2014, marcados pelo uso de esteroides. Anteriormente, o motivo era o doping com apoio do Estado russo seguido das tentativas do país de encobrir as evidências do escândalo. A Ucrânia se opõe ferozmente a permitir que os russos retornem ao mundo dos esportes, especialmente aos Jogos Olímpicos do ano que vem. Segundo a Ucrânia, mais de 220 atletas do país foram mortos na guerra, e centenas de instalações esportivas estão em ruínas. O país menciona precedentes como a exclusão da Alemanha e do Japão das Olimpíadas de 1948, após a Segunda Guerra Mundial. “Caso, Deus não permita, os princípios olímpicos sejam destruídos e os atletas russos tenham permissão para participar de quaisquer competições ou dos Jogos Olímpicos, é só questão de tempo até que o estado terrorista os obrigue a compactuar com a propaganda de guerra”, disse o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy a uma reunião de cúpula de ministros e autoridades esportivas de mais de 30 países, no mês passado. Essa reunião produziu uma declaração conjunta carregada de ceticismo quanto à proposta do COI para o funcionamento do processo de neutralidade, com especial preocupação sobre a possibilidade de que muitos atletas russos com vínculos militares possam competir. Na terça-feira, o COI disse que achou as indagações “construtivas”, mas que os países não abordaram as preocupações com uma possível discriminação. O relógio está correndo para que o COI encontre uma saída para dar aos atletas russos e belarussos a oportunidade de se qualificarem nos Jogos Olímpicos. As eliminatórias já começaram em vários esportes, e logo começarão em outros. Enquanto os atletas russos foram essencialmente excluídos ao longo do ano passado, os atletas ucranianos tiveram alguns sucessos importantes no cenário mundial. Oleksandr Usyk, que pegou em armas para defender a Ucrânia logo após a invasão, voltou ao boxe e defendeu seu título dos peso pesados contra Anthony Joshua em agosto. Yaroslava Mahuchikh, do salto em altura, conseguiu a medalha de prata no campeonato mundial realizado nos EUA, e Maryna Bekh-Romanchuk venceu o título europeu de salto triplo. A liga de futebol masculino da Ucrânia foi retomada em agosto, com alguns jogos interrompidos por alertas de ataque aéreo, e o Shakhtar Donetsk esteve à altura da fase de grupos da Liga dos Campeões, com uma vitória sobre o clube alemão Leipzig e um empate com a potência espanhola Real Madrid. Em uma declaração em fevereiro para marcar o aniversário de um ano da invasão, o COI não mencionou seus esforços para reintegrar a Rússia e Belarus, mas disse que as Olimpíadas poderiam promover “competição pacífica” entre os atletas de lugares como Coreia do Norte e Coreia do Sul, ou Israel e Palestina. “Os esforços de construção da paz exigem diálogo”, disse o COI. “Uma competição entre atletas que respeitam a Carta Olímpica pode servir como catalisador para o diálogo, que é sempre um primeiro passo para alcançar a paz.” ___ Acompanhe a cobertura da AP sobre a guerra na Ucrânia em: https://apnews.com/hub/russia-ukraine ___ Mais cobertura dos Jogos Olímpicos de Paris na AP: https://apnews.com/hub/2024-paris-olympic-games e https://twitter.com/AP_Sports ___ Esta matéria foi originalmente publicada em inglês em 22 de fevereiro de 2023.
Por , The Associated Press